

“Caminhava olhando pro chão, vez ou outra soluçando, as lágrimas não poderiam cair ali. Não ali, não agora. Esbarrava em quase todas as pessoas da calçada que vinham na direção oposta. Seja forte, seja forte, eu repetia em minha mente. Não posso ceder agora, por favor lágrimas voltem ao seus lugares, voltem aí pra dentro. Agora não é hora de sair, é cedo demais. Enxugava-as com a manga da minha blusa, por que eu era tão fraca? Por que não poderia ser mais forte? Por que? E as lágrimas amavam sair, amavam molhar o meu rosto e fazer meu olhos ficarem vermelhos de tanto chorar. Não seja fraca, logo você que logo era tão forte, que sempre não se deixou abalar. Logo você, pare de ser fraca. Levante essa cabeça e limpe as lágrimas, era o que eu pensava para tentar me reconstruir. Mas tudo em vão, parecia que os meus pensamentos me faziam ficar cada vez pior. Nenhum pensamento positivo poderia me fazer ficar melhor, nada de feliz. Na minha mente só havia borrões negros e flash de momentos passados. Aqueles momentos felizes em que o sorriso habitava meus lábios, em que não poderia imaginar esse futuro. E é como dizem: As lembranças machucam, principalmente as boas. Não discordo, machucam muito mais. Lhe fazem uma ferida profunda que nunca cura, que nunca cicatriza, fica ali aberta. Há pessoas que as deixam de lado, mas eu sou fraca demais e vivo a cutucando pra ver se fecha. Se sai dali. Mas nunca sai, e hoje ela resolveu doer. Resolveu me machucar mais do que já estou machucada. Resolveu piorar o meu dia. E essas lembranças boas? Onde as enfio? Onde as guardo? Alguém aí tem um baú que posso guardá-las e depois jogar no mar e ver ela sumindo? Preciso me livrar delas antes que elas acabem comigo aos poucos, antes que elas arranquem de mim toda a felicidade que pode haver aqui dentro. Essas lembranças são assassinas, assassinas de futuros. Elas não deixam eu traçar o meu futuro, querem que eu volte e busque aquela pessoa de lá do passado e traga ela novamente pra mim. Elas querem que eu viva a minha vida com aquela pessoa, elas querem que eu sorria novamente com aquela pessoa. Mas são bobas demais pra entender que só eu querer não é o suficiente, só eu querer não vai adiantar de nada. Por que, querer não é poder. E além disso aquela pessoa não quer mais saber de mim, ela já construiu a vida dela com outra pessoa, já está sorrindo com outras pessoas, já está traçando seu futuro com elas e eu não estou incluída nesse futuro. Então lembranças, larguem de ser idiotas e parem de me fazer chorar. Saiam daqui e vão procurar por outra pessoa. Estou cansada de voltar ao passado, de reviver aqueles momentos em minha mente e quando voltar a si achar ruim, querer voltar a fita e viver aqueles momentos mais uma vez. Coisa que não é possível, então lembranças, larguem do meu pé. Me deixem construir o meu futuro, façam o favor. Quero escrever o meu futuro como aquela outra pessoa conseguiu, agora se não se importam estou indo novamente escrever essa página sem essa crise de lembranças.”

Bom, feliz talvez ainda não. Mas tenho assim… aquela coisa…
como era mesmo o nome?
Aquela coisa antiga, que fazia a gente esperar que tudo desse certo, sabe qual? — Esperança?
Não me diga que você está com esperança!
— Estou, estou…

Aqueles beijos que mal tocam os lábios, apenas se encostam sentindo que o outro está ali. A pele era macia, a boca tinha um gosto doce, o corpo era quente, os olhos brilhavam, o sorriso iluminava. Tudo. Junto, era perfeito. A voz era suave, daquelas que eu não pretendia parar de ouvir. Os olhos negros, as mãos suaves, os lábios rosados. Era perfeito, uma sintonia. Uma melodia. Descobri que era uma música. Não, não. Você era poesia. Ainda é. Quando acorda nos sonhos, sem pretensão. Chega e rouba. Era música, poesia, era vida. Era tudo e mais um pouco do que não podia ser. Ou poderia, que fosse então. Poderia ser minha, quando dormisse, com o pijama bem passado e a fala arrastada de sono. E quando acordasse, ainda perdida, esfregando os olhos com a luz do dia, descabelada, pijama já amassado.
É que no sonho…era você.